Devido ao seu pouco tempo de existência, o jovem cinema se viu obrigado a se alimentar das artes mais maduras como a literatura, nos levando às Adaptações Cinematográficas. Analisando criticamente, veremos que o cinema e a literatura têm estruturas estéticas bastante diferentes. Diante disso, alguns cineastas tomam a decisão de se inspirar na obra original ou apenas traduzi-la, adaptando sua essência para as telas.

No filme Harry Potter e A Pedra Filosofal, o roteiro de Steve Kloves mantém um relacionamento muito próximo com as palavras de J.K Rowling, chegando a recontar as passagem exatamente da maneira como foram escritas. A transição suave da palavra impressa para a adaptação cinematográfica se dá através do roteirista mesmo que o cinema seja uma arte coletiva, pensada por uma vasta equipe de cineastas. Algumas vezes, diante de milhares de páginas, ele se vê obrigado a tomar escolhas praticamente impossíveis quanto ao que será incluído no produto final ou não.

Provavelmente, foi isso que aconteceu com Frank Walsh, roteirista da trilogia Senhor dos Anéis. Mesmo com Philippa Boyens e Peter Jackson colaborando durante o processo de adaptação da obra de J.R.R Tolkien, em outro extremo estavam os limites de uma produção com o custo razoável, um formato e duração pré-definido, que deixou muitas das páginas extremamente detalhadas que Tolkien escreveu de fora. Porém, muitas vezes a grande quantidade de informações deixadas pelo autor pode auxiliar o processo de adaptação para o roteiro. A obra bem narrada traz indícios para a planificação, arte, construção do personagem e outras aspectos que serão o manual de instruções para o cineasta destemido.

Ismail Xavier, teórico e professor de cinema brasileiro, pensa que “o livro e o filme nele baseado são como dois extremos de um processo que comporta alterações em função da encenação da palavra escrita e do silêncio da leitura”. Esses extremos entram em conflito constantemente, afinal, quando a construção se dá através da imaginação do leitor, cada um tem uma imagem bastante específica do que é ideal. Quando essa ideia precisa se traduzir para algo maior e abrangente, algo sem dúvida irá se perder.

As alterações que ocorrem nesse processo são frutos de uma série de fatores, quase todos eles ligados à produção. Os minutos de exibição não podem exceder um limite, existe um elenco disponível e é com ele que você terá que trabalhar, as locações nem sempre são ideais, o dinheiro é escasso, a política não permite, o filme tem que atingir a todos. Para o crítico e teórico de cinema, André Bazin, ainda que algumas adaptações sejam ousadas, “elas não podem causar danos ao original junto à minoria que o conhece e os ignorantes, ou se contentarão com o filme ou terão vontade de conhecer o modelo, e isso é um ganho para a literatura”.

Nosso coração geek anseia por ver cada detalhe da obra original tomar forma,exatamente como pensamos. Para nós, sempre haverá um espaço, determinada cena, personagem ou fala. “Deveriam ter incluído essa parte”, afirmamos entre fúria e tristeza. A verdade é que se pudessem, boa parte dos roteiristas incluiriam cada vírgula impressa no papel.

 

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