Quando as palavras impressas estão prestes a ganhar vida nas telas, nada é maior do que a expectativa quanto ao elenco escolhido. Não podia ser diferente com “Jogos Vorazes” escrito por Suzanne Collins. Durante meses os fãs fizeram apostas, escolheram seus favoritos, mas tudo em vão, pois a produtora Lionsgate já tinha dado a palavra final.

Jennifer Lawrence foi chamada para o papel de Katniss, a face da revolução. Polêmicas sem fim rondaram seu nome, afinal, era uma atriz caucasiana representando uma personagem que já havia sido descrita como possuidora de pele “cor-de-oliva”. Porém, nenhum barulho foi maior do que a reação dos fãs ao saberem que Rue, Thresh e Cinna seriam retratados por atores negros.

Muitas reações estão registradas no tumblr “The Hunger Games Tweets” e, entre todas, para mim estas são as piores:

"Aquele momento desconfortável quando Rue é uma garota negra e não a garotinha loira e inocente que você tinha imaginado."

"Me chame de racista, mas quando eu descobri que Rue era negra a morte dela não era mais tão triste."

Para muitas pessoas, a cor da pele está intimamente ligada ao caráter de alguém. Como a cor da pele de uma criança torna sua morte menos triste, como isso pode determinar se ela é pura e inocente? Pensamentos como este desencadeiam situações revoltantes como a de Trayvon Martin, que por ser um negro e usar capuz foi considerado “suspeito” e morto.

Nas páginas escritas por Collins, está mais do que claro que Thresh e Rue têm feições que indicam sua etnia afrodescendente. Ainda assim, leitores escolheram ignorar esse fato.

Quanto a Cinna, que nunca teve sua etnia realmente definida, o anuncio de que Lenny Kravitz o interpretaria teve comentários como: “Ele não será bonito como o loiro italiano que imaginava”. Claro, ao ler um livro você é livre para imaginá-lo como bem entender, mas essa escolha específica, diz muito.

O racismo ainda é algo presente em nossa cultura e ignorar não ajuda em nada. Mesmo que a escravidão e segregação racial tenham acabado, a mente das pessoas não mudou. Essas reações são apenas algumas das provas disso.

A indústria do cinema também não contribui muito, deixando de dar chance para que atores negros estrelem filmes que vão além dos esteriótipos já estabelecidos para eles. Premiar suas performances uma vez em cada década não significa que sejam apreciados por quem está no comando de Hollywood. Deixar com que tenham chances iguais em conseguir qualquer papel é o primeiro passo para a mudança. A falta de representação nas telas grandes faz com que pensamentos semelhantes aos mostrados aqui se tornem cada vez mais constantes.

Para concluir, aqui vai um vídeo de Marther Luther King. Neste discurso ele fala sobre o que as palavras “branco” e “negro” representam e como isso é equivocado.

“Certo dia, alguém contou uma mentira. Eles a ensinaram na língua. Eles fizeram tudo que é negro feio e maléfico. Olhem nos dicionários e vejam o sinônimo de negro. Sempre será algo degradante, baixo e sinistro. Procure pela palavra branco. É sempre algo puro, elegante e limpo. Bem, eu gostaria de concertar esse palavreado, hoje a noite. Quero tanto, que hoje qualquer um aqui vai se sentir orgulho de dizer: Sim! Eu sou negro e tenho orgulho! Sim! Sou negro e sou lindo!”

 

Tive um sonho, o sonho de que uma atriz negra poderia ser respeitada como outra atriz qualquer, que ela pudesse estar nos posteres sem despertar ódio e descrença. Talvez um dia esse sonho se torne verdade.

 

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