Imagem de Review - Jogos Vorazes

Eu demorei horas para começar a escrever a resenha de Jogos Vorazes, o que provavelmente reflete a minha opinião sobre o filme mais do que eu seria capaz de expor em palavras. Ele é muito bom e, ao mesmo tempo, poderia ser muito mais do que aquilo apresentado em cena.

Talvez por ser escravo do sistema de classificação etária – que poderia prejudicar a audiência adolescente – Gary Ross foi forçado a reduzir a quantidade de sangue mostrada. Em uma história que ganha força ao explorar a transformação de crianças em animais, os cortes rápidos de câmera mostram-se forçados e tornam brandas algumas das cenas mais impactantes.

Não que o estilo do diretor, fazendo grande uso de câmeras na mão e – em uma ocasião – perspectiva em primeira pessoa, não funcione muito bem em outros momentos. As cenas que precedem o início dos Jogos traduzem o universo criado por Suzanne Collins perfeitamente. A Colheita, em particular, é ainda mais impactante que nos trailers, usando perfeitamente a ausência estratégica da trilha de James Newton Howard e T-Bone Burnett para representar a tensão desesperadora que envolve os protagonistas.

A preparação dos tributos e, em especial, as entrevistas com Caesar Flickman – um Stanley Tucci inspirado – servem como metáfora da sociedade desesperadoramente hipócrita em que vivemos. Sentados em um auditório aparentemente interminável, membros abastados da sociedade assistem, riem e choram como que controlados por controle remoto. Eles fazem o que se espera do público, ignorando que 23 dos 24 entrevistados não estarão vivos no fim da semana. Nestas cenas, o roteiro de Jogos Vorazes brinca com o espectador. Afinal, quando finalmente vemos pela primeira vez a Arena, não nos sentimos incitados a torcer pela protagonista e, consequentemente, pela morte dos outros jovens?

Em particular, Cato – o grande vilão em frente às câmeras – recebe um inédito diálogo que tenta humanizar o personagem. Afinal, o que são os carreiristas além de máquinas de matar criadas com o mero propósito de levar glória a seus distritos? Ao mesmo tempo, o roteiro perde a oportunidade de expandir o universo de Collins, não acrescentando nenhuma informação sobre personagens misteriosos, como a Cara de Raposa.

A maneira direta como a história dos Jogos é apresentada também ajuda a introduzir a história a pessoas que não leram os livros sem se tornar cansativa. O cartão de entrada e, especialmente, o vídeo exibido durante a colheita ressoam bem tanto com este tipo de espectador quanto com os fãs da obra. A forma como Effie recita frases do vídeo como uma oração serve como identificação imediata do poder da lavagem cerebral realizada pela Capital e indica ao espectador exatamente o tipo de realidade distópica vivida por estes personagens. As cenas extras que mostram como Haymitch manipulou os patrocinadores para conseguir ajuda para seus tributos também ajudam a criar uma imagem mais completa do universo dos livros – desta vez não limitada à visão de Katniss. Além disso, vemos a narração de Ceaser durante os Jogos, em uma versão Pedro Bial da Capital. Não só um comentarista, seu papel no filme é nos transformar em espectadores do macabro reality show e é assustador perceber como não estamos tão distantes das sombras douradas.

A mesma consideração, entretanto, não foi dada a uma das mais importantes cenas do livro: Peeta dando o pão queimado a Katniss. Apesar de perfeitamente adequada para quem está familiarizado com o livro, os novos fãs provavelmente não entenderão como este gesto significou a diferença entre a vida e a morte para a protagonista.

O grande destaque de Jogos Vorazes, porém, é o elenco. Eu tenho que dizer, é incrivelmente refrescante acompanhar uma série de ficção juvenil cujo elenco é composto por atores competentes. Woody Harrelson, Elizabeth Banks e Donald Sutherland fizeram um ótimo trabalho com a elaboração de seus personagens. Desde os mais simples trejeitos, era possível ver Haymitch, Effie e Presidente Snow tomarem forma diante de quem assistia. Jennifer Lawrence, principalmente, mostrou a todos os críticos como ela realmente poderia se tornar Katniss Everdeen.

Apesar de um roteiro que não lhe proporciona muitas oportunidades durante a Arena, Lawrence tem na famosa cena de Rue momentos incríveis. A morte da criança é um dos momentos mais impactantes do livro e foi perfeitamente traduzido no ecrã. Além disso, a consequência da saudação dos três dedos foi modificada, tornando ainda mais definitiva a imagem da tributo do distrito 12 como ícone da revolução.

Finalmente, uma das minhas decisões favoritas foi como a equipe por trás de Jogos Vorazes decidiu não transformar a história de Peeta, Katniss e Gale em um triângulo amoroso. Na verdade, muito mais que o irritante “Team Peeta versus Team Gale” – que a imprensa internacional tanto tentara forçar – o que se viu foi uma Katniss que tinha consciência do efeito que sua relação com Peeta causaria nos possíveis patrocinadores. Em conjunto com Haymitch, ela usou o rapaz para conseguir o que queria. Mas até que ponto seus sentimentos são falsos e qual a consequência de seus atos em rebeldia à Capital? Isso só saberemos em Em Chamas.

Jogos Vorazes arrecadou 155 milhões de dólares em seu fim de semana de abertura – atrás apenas de Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte II e Batman – O Cavaleiro das Trevas. A franquia ainda terá mais dois – ou três – filmes e, se seguir o padrão de outras sagas de fantasia, onde a qualidade cresce a cada episódio, não teremos nada a reclamar. Enquanto isso, apesar de tudo, definitivamente vale o seu ingresso!

Rating: ★★★½☆

 

Deixe um comentário