Até que ponto elas são aceitáveis?

O objetivo da arte nem sempre é criar uma experiência estética agradável. Muitas vezes, ela pretende também criticar o status quo e levantar questões importantes que merecem ser discutidas.

Alguns artistas levam isso tão ao extremo, que chegam a usar animais e elementos inusitados em suas obras, suscitando verdadeiros escândalos. Mas diante de tanta “polêmica, debate, debate e polêmica”, fica a dúvida: até onde vão os limites aceitáveis? Esta é uma questão que está longe de ser definida. Mesmo assim, não deixa de ser importante e merece nossa atenção.

Afinal, é mesmo válido a arte usar meios tão drásticos para evidenciar problemas de ordem sócio-política e ambiental? Tire suas próprias conclusões:

 

Imagem de um cachorro morrendo de fome em exposição.

Eres Lo Que Lees | Guillermo Vargas

Em 2008, o artista Guillermo Vargas pagou crianças para capturar um cachorro na rua, que foi acorrentado à parede da exposição e praticamente morreu de fome antes de supostamente conseguir fugir. Um grande furor se despertou na mídia, o artista foi banido da Bienal de Honduras naquele ano e multado por crueldade com animais – ou pelo menos, foi isso o que disseram.

Segundo algumas fontes, o cachorro foi mantido preso por apenas três horas e alimentado regularmente. Para causar burburinho e chamar atenção para o problema, o artista teria manipulado as informações que foram divulgadas em veículos de massa.

Vargas disse que nenhum visitante se propôs a alimentar o animal ou libertá-lo. Além disso, afirmou que as reações à sua obra ressaltaram a hipocrisia da sociedade, que não se importa em ver um cachorro morrendo nas ruas, mas se escandaliza ao ver um preso na galeria.

 

The Story of Chickens: A Revolution | Amber Hansen

Amber Hansen pretendia criar uma instalação chamada “The Story of Chickens: A Revolution.” Entretanto, por questões de crueldade com animais, ela nunca aconteceu. Caso ocorresse, os visitantes poderiam observar e tocar cinco galinhas engaioladas. Depois, veriam as mesmas serem mortas, cozidas e servidas. Tudo isso teria por objetivo mostrar que carne não é apenas alimento.

Alguns diriam que é hipocrisia consumir carne de animais que foram cruelmente abatidos e se horrorizar diante de uma obra que expõe o mesmo processo de abate visando a conscientização. Outros diriam que qualquer tipo de manifestação de crueldade deveria ser banida independente das motivações. Já os mais ousados, diriam que medidas drásticas devem ser tomadas para que atitudes mudem.

Por bem ou por mal, as aves predestinadas a essa fatalidade foram ao menos temporariamente poupadas. Entretanto, se elas ainda estão vivas, provavelmente não escaparão de um destino menos cruel. Afinal, num mundo que consome carne de forma massiva, é quase certo que elas seguirão para um abatedouro, onde morrerão de uma forma desumana, longe da vista de qualquer um que possa tentar evitar ou questionar tal ato.

 

Myra | Marcus Harvey

Esta é uma pintura feita por impressões digitais de crianças. Até aí, nada de controverso, certo? O problema é elas compõem o rosto de Myra Hindley, que foi responsável pelo assassinado de cinco crianças e adolescentes entre 1963 e 1965. Assim que a obra foi posta em exibição no Royal Academy of Art em 1997, o público reagiu com indignação, jogando ovos e tinta sobre a tela.

Muitos acreditam que a reação a esta pintura é inapropriada. Contudo, Richard Cork – crítico da Arte no jornal The Times – disse que “longe de explorar cinicamente sua notoriedade, a tela sombria e monumental de Harvey obteve êxito em transmitir a gravidade do crime que ela cometeu. Vista de longe, através de diversos ângulos, o rosto de Hindley nos encara como um fantasma. Quando nos aproximamos o suficiente para perceber que é feita com impressões digitais de crianças, a sensação de perigo toma proporções enormes.”

 

Still Life with Stem Cells | Patricia Piccinini

Em 1816, Mary Shelley levantou uma importante questão com Frankestein. Seríamos capazes de amar um ser resultante de um processo artificial? No romance, uma das primeiras reações do médico foi rejeitar sua criação. Mas sendo um ser vivo, independente da aparência, ele não mereceria desprezo, certo?

Anos mais tarde, Patricia Piccinini confrontou o público com a mesma questão usando esculturas hiper-realistas de criaturas híbridas em situações cotidianas e familiares. Seus mutantes demonstram possíveis resultados de experimentos genéticos e poderiam fazer parte de um filme de ficção científica ou de um bar em Tatooine.

É um trabalho excepcional, com o qual é não dá para ficar impassível. Ou você ama ou odeia.

 

Shark | David Černý

Em 2005, o artista checo criou uma escultura de Saddam Hussein e a colocou num tanque de formaldeído para fazer sátira à obra “The Physical Impossibility of Death in the Mind of Someone Living”, de Damien Hirst.

Por usar uma figura política que por si só já desperta polêmica, a obra alcançou níveis dramáticos de rejeição. Em 2006, foi banida em Middelkerke, Bélgica e em Bielsko-Biala, Polônia. Michel Landuyt, autoridade da Bélgica, disse que ficou preocupado com a possibilidade da obra “chocar pessoas, incluindo os muçulmanos.” Na Polônia, as razões para a censura não foram bem esclarecidas.

 

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