Garota escrevendo

Até meados de 1960, a expressão “fan fiction” era usada para definir obras originais de ficção científica publicadas em fanzines por escritores que não eram profissionais.

A expressão ganhou um novo significado quando fãs de Star Trek passaram a empregá-la para se referir às histórias que escreviam com base no show. A partir de então, o movimento que foi impulsionado por trekkies só cresceu e ganhou dimensões gigantescas com o surgimento da web.

Hoje, milhares de histórias alternativas estão disponíveis em sites como FanFiction.net e centenas de outras surgem todos os dias.

Lev Grossman, escritor da Time, chegou a comparar o fenômeno com a matéria escura dizendo que “é bem invisível para a maioria das pessoas e, ao mesmo tempo, inacreditavelmente massivo.” Diante de tantos fãs se apropriando de personagens e universos ficcionais, os autores dificilmente ficam impassíveis.

Enquanto alguns apoiam, outros se opõem veemente à ideia. Sergey Lukyanenko – autor de Night Watch – não apenas tolera fan fictions, como também incorpora as melhores na obra canônica com a permissão dos escritores. Larry Niven – autor de Known Space – diz que terminou suas histórias neste universo e quem quiser mais aventuras, terá que escrevê-las. Já Anne Rice não apenas desencoraja esse tipo de prática, como as proíbe. Gostem ou não, eles terão que conviver com isso. Afinal, é impossível impedir uma horda de fãs obcecados de colocar suas ideias no papel.

Em vez de serem meros consumidores passivos de itens culturais, eles fazem ficções de tudo: livros, filmes, shows de TV e até vídeo games. Uma vez ou outra, elas ultrapassam as obras originais em volume e qualidade. Mesmo assim, os autores originais não precisam se sentir ameaçados. Suas obras já são consagradas e quem escreve histórias alternativas geralmente não o faz por motivos comerciais e sim por satisfação.

Ainda assim, os conflitos existem. Muitos alegam que se os fãs fossem realmente criativos, fariam seus próprios personagens. O mais irônico é que tudo escrito é baseado em alguma coisa. Até mesmo o célebre C. S. Lewis adotou certos elementos da obra de J.R.R Tolkien para incorporar no último livro da sua Trilogia Cósmica. Como disse Grossman, “os autores não são os criadores das histórias que contam. […] Criação real é algo que os deuses fizeram.”

O advento da propriedade intelectual e dos direitos autorais  deixou a situação bem mais complexa. Afinal, eles estão certos ou não em se opor à fan fictions? Conheça melhor a opinião de três grandes autores e não deixe de dar a sua.

Autor das Crônicas de Gelo e Fogo - Game of Thrones

EW Entertainment

 George R.R. Martin

O autor das Crônicas de Gelo e Fogo parece não se importar em ver sua obra ganhando contornos diferentes na adaptação para TV que é exibida na HBO. Ele inclusive aprova alterações para as quais muitos fãs torcem o nariz. Entretanto, sua tolerância não se estende para além disso. Ele se mostra totalmente contra fan fictions.

De acordo com o autor, “todo escritor precisa aprender a criar seus próprios personagens, mundos e cenários. Usar o universo de outros é uma saída preguiçosa.” Ele ainda se justifica dizendo que seus personagens são como filhos e que, por isso, não gosta de ver ninguém se aproveitando deles. Em suas próprias palavras, só ele pode “abusar das pessoas de Westeros.”

Ok, Martin. Abuse, mas não mate todo mundo ou vou ter que recorrer às fics.

Autora de Harry Potter

J.K. Rowling

J.K. pode não escrever mais sobre Harry Potter, mas isso não quer dizer que não haverá mais histórias. Todos os dias, novas aventuras de Hogwarts surgem em sites como FanFiction.net, que já conta com mais de 500,000 histórias deste universo mágico.

Ao contrário de Martin, a autora se simpatiza com fan fictions. Nas palavras de sua agente, “ela fica muito lisonjeada com o fato de haver tanto interesse em Harry Potter e pessoas investindo tempo para escrever suas próprias histórias. Sua preocupação é se certificar de que estas atividades permaneçam com caráter não-comercial […] e que elas não sejam publicadas na imprensa tradicional.”

Ela também se preocupa com versões pornográficas derivadas das suas obras. Em sua opinião, os livros talvez tenham se tornado mais adultos, mas eles ainda são direcionados para crianças pequenas. Seria um problema se elas se deparassem com uma história x-rated de Harry Potter.

Autor de Sandman e Coraline

Neil Gaiman

Antes de fazer sucesso, Neil Gaiman fazia suas fics – inclusive sobre Babylon 5. Portanto, ele já esteve no lugar que muitos fãs se encontram hoje.

“Fan fiction é fan fiction. Eu não acredito que vou perder os direitos sobre meus personagens e obras se eu permitir, impedir ou fazer vistas grossas para pessoas que escrevem, por exemplo, fiction de NeverWhere […].” Contanto que não explorem suas histórias de forma comercial, ele não se importa com as criações derivadas.

Para ele, toda forma de escrita é válida e pegar emprestado o mundo criado por outro é uma boa alternativa para começar a exercitar suas habilidades no mundo da literatura. Embora encoraje o uso de fics para a prática da escrita, ele ressalta que uma hora será preciso evoluir e escrever suas próprias histórias.

 

E você, leitor, escreve fics? Ou acha que esta não é uma boa ideia e prefere criar seu próprio universo?

 

 

Deixe um comentário