Análise do Hugo Awards 2012

Os vencedores do Hugo Awards foram divulgados recentemente e o prêmio – um dos mais conhecidos da ficção científica – trouxe à tona mais do que declarações de Neil Gaiman sobre seu retorno a Doctor Who.

Validando desde obras já consagradas pelo Nebula Awards e passando por conteúdo feito por fãs, é surpreendente perceber como muitos dos vencedores estão disponíveis – legal e gratuitamente – na internet.

Pensando nisso, além de uma simples lista de vencedores, resolvemos trazer algo mais. Afinal, quem são estas pessoas? De onde veem? Onde habitam? Do que se alimentam? Descubra hoje, no… ehr. Enfim, allons-y.

 

Melhor Romance

Among Others, de Jo Walton (Tor)

 

Jo Walton já havia ganhado o World Fantasy Award pelo livro Tooth and Claw, mas Among Others está se mostrando imbatível nesta temporada de premiações. Tendo ganhado o Nebula, conta a história de Morwenna Phelps, uma fã de ficção científica vivendo em um internato na década de 70. Nada de mais, se não fosse sua mãe – uma bruxa em todos os sentidos – e as fadas do País de Gales.

Ficou curioso? A gente também. Mas não se preocupe, porque no fim da semana traremos uma resenha bem mais detalhada!

 

Melhor Novela

“The Man Who Bridged the Mist” (pdf) de Kij Johnson (Asimov’s, Setembro/Outubro 2011)

 

Kij Johnson é mais conhecida pelos seus contos, tendo ganhado o Nebula por “Spar” e o World Fantasy Awards por “26 Monkeys, Also the Abyss”, mas sua novela “The Man Who Bridged the Mist” tem feito bastante sucesso, tendo levado não só o Hugo como mais um Nebula.

A história, que explora a construção de uma ponte capaz de unir um império dividido pela névoa (como o título tão educadamente nos informa) traz uma sutileza interessantíssima. Trata-se de uma novela onde os personagens contam mais do que a trama, mas que, ainda assim ou quem sabe, em função disso, não deixa de ser preciosa.

 

Melhor Noveleta

“Six Months, Three Days” de Charlie Jane Anders (Tor.com)

 

A primeira frase da noveleta de Charlie Jane Anders – conhecida pelo seu trabalho no io9 – é “O homem que pode ver o futuro tem um encontro com a mulher que pode ver muitos futuros possíveis.”

Lembro que quando li esta história pela primeira vez, há mais de um ano atrás, me interessei pelas diferentes possibilidades. Afinal, todo viajante do tempo sempre se depara com a mesma pergunta: podemos mudar o passado? E, sendo passado e futuro coisas relativas, podemos mudar o futuro?

Qual dos dois protagonistas teria razão? Doug, com sua convicção em um único resultado ou Judy e sua certeza de escolha? É exatamente esta dúvida constante que cerca “Six Months, Three Days” e eu prometo, vale cada palavra.

 

Melhor Conto

“The Paper Menagerie” (pdf) de Ken Liu (The Magazine of Fantasy & Science Fiction, Março/Abril 2011)

 

Wow.

Certas histórias passam por você. São divertidas, interessantes e até emocionantes, com um pouco de sorte. Outras, independentemente do tamanho, são como um soco na boca do estômago e ainda assim, você não trocaria a experiência por nada. The Paper Menagerie entra na segunda categoria.

Não vou entrar em detalhes da história porque cada uma de suas 15 páginas merece ser descoberta e interpretada sem nenhuma influência externa. Vá lá, eu espero.

 

Melhor Trabalho Relacionado

The Encyclopedia of Science Fiction, Terceira Edição, editada por John Clute, David Langford, Peter Nicholls e Graham Sleight (Gollancz)

 

A primeira edição da enciclopédia surgiu em 1979, editada por Peter Nicholls, e contava com mais de setecentas mil palavras. Já a segunda, com 1,3 milhões de palavras, apareceu em 1993. Nas duas ocasiões, levou o Hugo Award de Não-Ficção, uma categoria hoje aposentada.

Como parte da comemoração dos 50 anos da editora Gollancz, todo este conteúdo foi atualizado e disponibilizado online em uma versão beta. A previsão é que ao fim de 2012 ela tenha mais de três milhões de palavras, espalhadas por cerca de doze mil verbetes e mais de cem mil links internos.

E, olha só, ganharam o Hugo de novo. Quelle surprise. Só que não.

 

Melhor História em Quadrinhos

Digger, de Ursula Vernon (Sofawolf Press)

 

Uma webcomic estrelada por um marsupial antropomorfo? Count me in.

 

Melhor Apresentação Dramática (Forma Longa)

Game of Thrones (1ª Temporada) (HBO)

 

Então. Você realmente chegou até aqui e nunca ouviu falar de Guerra dos Tronos ou – em sua forma mais formal – das Crônicas do Gelo e do Fogo? De verdade? É, eu imaginei.

 

Melhor Apresentação Dramática (Forma Curta)

“The Doctor’s Wife” (Doctor Who) (BBC Wales)

 

Eu poderia falar a mesma coisa do genial episódio de Neil Gaiman para a sexta temporada de Doctor Who, mas me impediria de mencionar a awesomidade de Neil Gaiman e isso não se faz.

O autor britânico é conhecido pela saga Sandman e ganhou seu quinto Hugo nesta cerimônia. Poderiam ter sido seis, mas ele pediu que sua indicação por Anansi Boys fosse retirada, já que o livro era mais fantasia do que ficção científica e queria dar uma chance para outros escritores. Afinal, já bastavam os três prêmios que ele tinha até então.

Como eu disse, awesome.

 

Melhor Editor (Forma Curta)

Sheila Williams, editora da revista “Asimov’s Science Fiction”

 

Editar uma das revistas de ficção científicas mais populares dos EUA não deve ser tarefa fácil. Suceder Gardner Dozois – que ganhara 15 Hugos nos seus 19 anos no emprego – tampouco, mas Sheila Williams está fazendo jus ao cargo.

Depois de ser indicada cinco vezes seguidas desde 2006, ela finalmente levou o prêmio no ano passado e parece estar seguindo os passos de seu antecessor com mais uma vitória neste ano. Para alcançar Dozois, porém, ainda falta um pouco. Ele ficou invicto de 1988-1993 e de 1995-2001 e só outro editor – Ben Bova, com seis – tem mais de três prêmios na história da categoria.

Não é tarefa fácil, mas estamos de olho. Quem sabe em vinte anos?

 

Melhor Editor (Forma Longa)

Betsy Wollheim, Presidente e Editora da “DAW Books”

 

Criada pelo pai de Betsy, a DAW é uma editora inicialmente conhecida por suas obras populares, mas não necessariamente criticamente aclamadas. Ainda mantida na família Wollheim, este foi o primeiro prêmio de edição para a DAW Books.

Se o nome do seu fundador, Donald A. Wollheim, parece um pouco familiar é porque foi ele o responsável, enquanto ainda trabalhava na Ace, pela publicação da trilogia O Senhor dos Anéis em paperback nos Estados Unidos. O que a história tem de mais peculiar é que isso foi feito contra a vontade de Tolkien e explorando um detalhe do contrato, mas acabou trazendo muito dinheiro não só para os editores mas também para o próprio autor.

 

Melhor Artista Profissional

John Picacio (Portfólio)

 

John Picacio é um ex-arquiteto e ilustrador em tempo integral desde 2001. Esta foi sua sétima indicação ao Hugo Awards e sua primeira vitória. Alguns dias antes, ele já havia recebido o Chesley pelas fantásticas ilustrações do “George R.R. Martin: A Song of Ice and Fire, 2012 Calendar”.

 

Melhor Revista Semi-Profissional

Locus, editada por Liza Groen Trombi, Kirsten Gong-Wong, et al.

 

Um dos periódicos mais respeitados no campo, a Locus já tinha levado o prêmio de Melhor Fanzine oito vezes quando a categoria de Revista Semi-Profissional foi criada. Das 29 vezes que a última foi ofertada, a Locus foi indicada, adivinhem, 29 vezes, saindo vitoriosa em 22 destas.

Preciso repetir que é uma revista bem respeitada?

 

Melhor Fanzine

SF Signal, editada por John DeNardo

 

Blog conhecidíssimo pelos fãs de Sci-Fi, é dele o genial infográfico para navegar o Top 100 Livros de Fantasia e Ficção Científica da NPR – e sua versão interativa. Além de um podcast divertidíssimo, também traz colunas semanais nos mais diversos aspectos do gênero. Vale conferir!

 

Melhor Fã Escritor

Jim C. Hines (Página pessoal com alguns textos disponíveis)

 

Finalmente um prêmio para escritores de fanfiction!

É… não. Esta categoria se refere a escritores que publicam em fanzines, revistas semi-profissionais, blogs, mailing lists, fóruns e demais meios eletrônicos, mas desconsidera trabalhos publicados em revistas profissionais.

Jim C. Hines tem até alguns livros no mercado, mas se o nome parece vagamente familiar, é provavelmente por causa deste post aqui. Lembra do escritor de meia idade reproduzindo as poses absurdas em algumas capas de fantasia? Era ele.

 

Melhor Fã Artista

Maurine Starkey (Deviant Art)

 

Provavelmente a definição mais complicada, os artistas que aparecem nessa categoria podem ter tido trabalhos em materiais profissionais, mas estes devem ser desconsiderados quando julgados. Novamente, só são válidos publicações em fanzines e revistas semi-profissionais, além de exposições públicas. Mais confuso ainda é o fato que os votantes têm total liberdade para definir se alguém é fã ou profissional usando o que é basicamente um critério subjetivo que eu não vou fingir entender.

De qualquer maneira, Maurine Starkey sagrou-se vencedora no Hugo Awards 2012, e não dá pra negar que tem algumas coisas interessantes nas galerias do seu Deviant Art, apesar do traço dela não ser dos meus favoritos. Em particular, vale a pena dar uma olhada nas suas pastas de Doctor Who e Piratas.

 

Melhor Fancast

SF Squeecast, Lynne M. Thomas, Seanan McGuire, Paul Cornell, Elizabeth Bear, e Catherynne M. Valente

 

Como não amar um podcast que resolve se definir como Squeecast?

E squee, palavra que é definida pela fonte de todo o conhecimento lexical como “um barulho feito principalmente por uma fangirl super excitada”, resume bem o propósito dele. Criado com o objetivo de reunir profissionais da Fantasia e da Ficção Científica, o podcast traz mensalmente resenhas dos mais variados meios.

A edição mais recente tem Paul Cornell (sim, o mesmo de Doctor Who) recomendando William Gibson, Lois McMaster Bujold falando da Bat Bomb na Segunda Guerra Mundial (sim, isso existe mesmo) e Lynne M. Thomas falando da sétima encarnação do Doctor (sim, eu não tenho nenhuma informação extra para colocar entre parênteses aqui, mas precisamos manter a coerência) em uma edição gravada ao vivo.

Capítulos anteriores já contaram com Javier Grillo-Marxuach, Rachel Swirsky e o nosso troll favorito – Moff, também te amamos – George R. R. Martin.

Interessado? Corre lá pra ouvir!

 

Deixe um comentário